MARMELO: O RESGATE HÍDRICO PELA LOGÍSTICA SUSTENTÁVEL
Como o Porto Seco de Mairiporã pode salvar o Sistema Cantareira do colapso da ocupação clandestina
Por: Nelson Pedroso Presidente da Associação Global de Desenvolvimento Sustentado (AGDS) Ex-Presidente do Comitê da Bacia Hidrográfica do Alto Tietê Membro do Comitê Consultivo de Políticas e Ações Climáticas de São Paulo
INTRODUÇÃO: O FALSO DILEMA ENTRE DESENVOLVIMENTO E PRESERVAÇÃO
Durante décadas, a gestão de recursos hídricos no estado de São Paulo foi pautada por uma visão reativa. No entanto, minha experiência à frente de ações assertivas ao longo de mais de 20 anos junto ao Sistema Integrado de Recursos Hídricos no Estado de São Paulo e nas políticas climáticas da capital me permitiu observar uma verdade incômoda: o "vazio" institucional não preserva a natureza; ele a entrega à degradação.
A região do Marmelo, em Mairiporã, é hoje o epicentro desse paradoxo. Situada em zona estratégica de mananciais, ela padece não de excesso de projetos, mas da falta de um projeto âncora que imponha ordem, fiscalização e tecnologia. A instalação de um Dry Port (Porto Seco) não é apenas uma necessidade logística para o Aeroporto de Guarulhos; é, antes de tudo, uma intervenção de salvaguarda ambiental.
I. A ANATOMIA DA DEGRADAÇÃO: O IMPACTO DO SOLO NU
O cenário atual do Marmelo é de um "extravasamento" logístico desordenado. Sem um hub oficial, a área é alvo de loteamentos clandestinos e arruamentos precários.
Erosão e Assoreamento: O solo nu batido das ocupações irregulares é o maior inimigo da produção de água. Sem cobertura vegetal ou drenagem técnica, cada chuva transporta toneladas de sedimentos para os corpos hídricos.
O Sufocamento dos Rios: O assoreamento reduz a profundidade das calhas e a capacidade de reservação. Estamos perdendo água por "entupimento" das veias do Sistema Cantareira.
II. O PORTO SECO COMO ESCUDO CONTRA A CLANDESTINIDADE
A ocupação "formiguinha" é silenciosa e letal. Ela desmata áreas de preservação permanente (APPs) sem qualquer plano de compensação.
"A instalação de um empreendimento de alto padrão aduaneiro altera a dinâmica de ocupação. Onde antes havia o risco da invasão, passa a existir a vigilância patrimonial, o monitoramento por câmeras e a responsabilidade jurídica de um ente privado sob rigorosa fiscalização da CETESB."
III. PRODUÇÃO DE ÁGUA: O SALTO EM QUANTIDADE E QUALIDADE
Ao contrário do que o senso comum sugere, o Porto Seco pode ampliar a produção de água. Como presidente da AGDS, defendo que a engenharia sustentável aplicada a este projeto traz benefícios que a natureza "abandonada" já não consegue prover sozinha:
Drenagem Inteligente: Pavimentos semipermeáveis e bacias de retenção (piscinões ecológicos) filtram a água e garantem a recarga do lençol freático, algo impossível no solo batido das ocupações clandestinas.
Saneamento de Ponta: O projeto exige a instalação de Estações de Tratamento de Efluentes (ETEs) com tecnologia de reuso. Enquanto as fossas irregulares das invasões contaminam o solo, o Porto Seco devolve água tratada ao sistema.
Barreiras de Sedimentos: O projeto prevê a contenção definitiva de encostas, cessando o processo de assoreamento que hoje mata nossos rios.
IV. RESILIÊNCIA CLIMÁTICA E PEGADA DE CARBONO
Como integrante do Comitê de Políticas Climáticas, destaco o impacto atmosférico. O Porto Seco em Mairiporã, conectado ao Rodoanel Norte, retira o tráfego pesado das vias urbanas e elimina o idling (motores ligados parados no trânsito).
Eficiência Logística: Menos tempo de motor ligado significa menos gases de efeito estufa.
Eletrificação: O hub do Marmelo nasce com a infraestrutura para veículos elétricos, antecipando a transição energética global para o setor de cargas.
V. O PAPEL DA FISCALIZAÇÃO: MUNICÍPIO, CETESB E SOCIEDADE
O rigor imposto pela Prefeitura de Mairiporã e pela CETESB neste licenciamento é a garantia de que não teremos um "depósito de caixas", mas um ativo ambiental. As contrapartidas exigidas — que incluem reflorestamento de corredores ecológicos e proteção de nascentes — transformam o investidor privado em um "guardião do manancial".
VI. IMPACTO SOCIAL: O FIM DA CIDADE DORMITÓRIO
A sustentabilidade também é social. A geração de empregos qualificados no Marmelo fixa o cidadão em Mairiporã, reduzindo o deslocamento pendular e melhorando a qualidade de vida. É o ciclo virtuoso: renda local gera investimento local em preservação.
CONCLUSÃO: A ESCOLHA É ENTRE O CAOS E A GOVERNANÇA
Não temos mais o luxo de esperar. O Marmelo está sendo consumido pela falta de diretrizes claras. O projeto do Porto Seco representa a transição necessária da Exploração Predatória para o Desenvolvimento Sustentado.
Como alguém que dedicou a vida à governança das águas, afirmo: a tecnologia e a logística, quando subordinadas à ética ambiental, são as melhores ferramentas que temos para garantir que o Sistema Cantareira continue a abastecer as gerações futuras. O Porto Seco de Mairiporã não é sobre asfalto e concreto; é sobre segurança hídrica e responsabilidade climática.
Nelson Pedroso São Paulo, Março de 2026.